Tagarelando... Preto no Branco


                  Tagarelando... Preto no branco


Nada. De novo. Fecho meu E-mail, bufando alto, tamborilando os dedos sobre a escrivaninha. Mais um dia terminou, sem que eu obtivesse uma resposta. Mais um dia em que a ansiedade me tomou por completo, impedindo-me de fazer qualquer outra coisa, que não me sentar em frente ao computador e atualizar a página que carrega meu E-mail, repetidas vezes. Uma após a outra. E exceto pelos insistentes spans, nada mudou. Nenhum nome importante brilhou na tela de meu computador, para me trazer a notícia por qual estou esperando.
Meu telefone toca mais uma vez e reconheço o número. É cobrança. Mais uma. Como se eu já não tivesse problemas para uma vida inteira. Aperto o botão de recusar.
Meus cabelos estão oleosos e minhas unhas, tem apenas alguns resquícios de esmalte rosa. Não me lembro da última vez, em que comi uma refeição fresca e quente. Há muito tempo, acho.
A verdade é que... Não sei mais o que fazer. Estou à beira de um ataque de nervos, ou pior. As contas não param de aparecer, por baixo do vão da minha porta e tem tanta gente atrás de mim, que já não atendo ao telefone. Estou no fundo do poço.
Minha gata, Lua, se espreguiça em um canto, miando para chamar a minha atenção. Ela está com fome.  Me levanto, as pernas bambas, e vou até o armário. Está vazio. Tudo o que eu tenho, é uma lata de azeitonas. A minha vida inteira, resumida à uma lata de azeitonas. Apoio meus braços na pia, os olhos a lacrimejar. Lua aparece na cozinha, delicada e se esfrega em minhas pernas. Ela está com fome. E eu também.
Cansada, me ajoelho no chão e ao lado de Lua, deixo minhas lágrimas escaparem, desenfreadas. Meus soluços ficam cada vez mais altos, e a gata mia, preocupada.
- Sei que você está aí, Arthur. Pare de se esconder. - sussurro, sentindo o coração pesar. Um ano. Um ano havia se passado desde que eu o perdera. Mãe solteira, precisava sair de casa para trabalhar. Arrumar algum dinheiro. Ele sempre me prometia, que tomaria cuidado. Que não se arriscaria a usar o fogão, ou brincar com objetos pontiagudos. Me esperaria, em casa e se alguém batesse na porta, faria silêncio, para que a pessoa do outro lado pensasse não ter ninguém em casa. Mas naquele dia, ele me desobedeceu. Ouviu a voz do pai, do outro lado da porta e não pensou duas vezes antes de deixá-lo entrar. Anderson o jogou do terceiro andar, do prédio em que morávamos. Estava alcoolizado, disseram os policiais. Mas para mim, não importava que estivesse. Porque afinal, ali, naquele dia, todos os meus sonhos e esperanças foram arremessados junto com meu filho, janela à fora. E eu já não tinha porquê lutar. A minha vida perdera as cores. Desde então, tudo o que eu fazia, era esperar por aquele E-mail. O E-mail de uma editora, que estivesse disposta a publicar o meu romance. O que eu escrevi, quando ainda tinha Arthur junto à mim. No fundo sei, que é a única coisa que mantem viva. O único resquício de felicidade que sobrou. Porque para um escritor, ninguém morre, para sempre. E nada me parece mais precioso que isso. É a chance que eu tenho de eternizar meu pequeno Arthur. Em meu coração e nas páginas amareladas de um livro. Lua mia, ao meu lado, e embora esteja com fome, se deita em meu colo. As azeitonas podiam esperar.


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