Entrevista GIGANTESCA: J. K Rowling fala sobre The Casual Vacancy!





 




Ela estava pronta para uma mudança de gênero. “Eu possuía um monte de material do mundo real em mim, acredite”, disse Rowling. “A coisa sobre fantasia – existem algumas coisas que você simplesmente não faz em fantasia. Você não faz sexo perto de unicórnios. É uma regra de ferro. É brega.” E então ela acrescentou, cuidadosamente, “Não que eu queira escrever sobre pessoas fazendo sexo.” Ao invés disso, começou com a ideia de escrever sobre uma eleição local, o que a deu uma “descarga de adrenalina”. A série Harry Potter teve uma história encantadora, conhecida por todos os fãs: em 1990, em um trem atrasado entre Manchester e Londres, Rowling foi dominada pelo pensamento de um menino que descobre, com 11 anos de idade, que é um bruxo. A ideia para “The Casual Vacancy” também veio para Rowling enquanto ela viajava, mas desta vez estava em um avião privado, fazendo um tour pela América para promover “Harry Potter e as Relíquias da Morte”.


THE CASUAL VACANCY
Marcha Trouxa

J.K. Rowling escreve um romance realista para adultos
The New Yorker ~ Ian Parker
27 de setembro de 2012
Tradução: Renato Ritto, Mari Trevisan, Gabriel Guimarães
Revisão: Evandro Lira


A cobertura de coníferas em frente à casa do século dezessete de J.K. Rowling, em Edimburgo, tem cerca de seis metros de altura. Elas são mais altas do que as lâmpadas da rua em sua frente, e evocam a entrada para o labirinto maligno do filme da adaptação de “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, o quarto volume de sua série fantástica. Rowling, que, aos quarenta e sete, está prestes a publicar seu primeiro livro para adultos – que se passa em uma Grã-Bretanha contemporânea familiarizada com Jay-Z e pornografia online, mas é sombreada com memórias de sua própria criação triste – mora aqui com seu segundo marido, Neil Murray, um médico, e seus filhos. Ela tem reputação de reserva: por ser simpática, porém tímida e sensível, e por não estar de tudo confortável com o impacto pessoal de ter criado um mito moderno, vendeu 450 milhões de livros e inspirou mais de 600 mil fanfics de Harry Potter, um total que aumenta em mil histórias, pelo menos, a cada semana. Ian Rankin, o escritor dos romances criminais baseados em Edimburgo, se tornou amigo de Joanne Rowling quando eram vizinhos em outra parte da cidade; ele recentemente a descreveu como “muito quieta, muito introspectiva”. Rankin relembrou o convite à Rowling para se juntar a ele em uma entrevista em palco no Festival de Livros Internacional de Edimburgo (Edinburgh International Book Festival), há alguns anos. Depois que Rowling assistiu Rankin sendo entrevistado em um evento similar, ela lhe disse: “Eu não acho que possa fazer isso.” Rankin respondeu: “Eu acho que ela se sente desconfortável em uma sala cheia de adultos. Eu já a vi em uma sala cheia de crianças, e ela está em seu lugar”. Rankin observou que Rowling, em sua escrita, mantém “o poder de vida e morte sobre esses personagens.” Ela está suspeitando “de situações que você nem sempre pode controlar – no mundo real”.

Na primavera, quase cinco anos após o lançamento do sétimo e último livro de Harry Potter, a Little Brown, editora de Rowling, anunciou “The Casual Vacancy”, e ofereceu um vislumbre da trama: uma cidade idílica inglesa chamada Pagford; a morte de um homem chamado Barry; uma eleição do conselho paroquial. Em resposta, uma editora anunciou “The Vacant Casualty”, dito como uma paródia, se é que alguém pode parodiar uma coisa cujo conteúdo é desconhecido. Comentaristas no website do Guardian conjecturaram sobre os modelos prováveis de Rowling, com referências à Robertson Davies e “Desperate Housewives”. Um leitor, brincando com a palavra de Rowling para a sociedade não-mágica, sugeriu um título alternativo: “Mugglemarch” (Marcha Trouxa). E os hosts do Pottercast, um podcast popular feito por fãs americanos, surtaram com o comunicado de imprensa, registrando tanto prazer com as novas informações – Rowling escreveu apenas dez tweets em três anos – quanto uma pitada de preocupação que uma ligação global extraordinária entre um autor e seus leitores, e entre duas gerações, estava prestes a ser cortada. Eles estavam abrindo um convite para uma festa que talvez não fossem muito bem-vindos. Durante o podcast, eles procuraram “conselho paroquiano” na Wikipédia, e estabeleceram que o termo referia-se ao degrau mais baixo do governo local inglês. Uma dos hosts, Melissa Anelli – uma mulher de 32 anos que mantém um site Potter, organiza uma convenção Potter anual e publicou um livro inteligente sobre Potter-entusiastas – refletiu sobre o título, perguntando “O que pode ser casual em uma vaga?”. Ela e seus co-hosts se perguntaram se iriam à uma festa à meia-noite para celebrar o lançamento do livro, como muitos fãs fizeram para os livros mais tardios de Harry Potter.



Na Grã-Bretanha, Ian Rankin normalmente publica um novo romance em Outubro, e que tende a ir ao topo da lista de mais vendidos. Ele disse que, este ano, sua editora mudou a data para Novembro, temendo que o lançamento de “The Casual Vacancy” irá, por algumas semanas, fazer todas as outras ficções ficarem invisíveis para os leitores e para a mídia. Rankin foi pego de surpresa, mas feliz, com o tempo de escrita extra. Ele se pergunta se “The Casual Vacancy” possa ter um ar de história de detetive; Rowling conversou com ele sobre sua admiração pela escrita criminal britânica dos anos vinte e trinta. “Ela adora Margery Allingham e Dorothy L. Sayers”, disse ele, adicionando que a descrição de Pagford o aliviou de seu maior medo: que Rowling estivesse trabalhando em um romance policial em Edimburdo. “Eu espero que ela crie uma aldeia inglesa que conheça intimamente – e então ela será real para nós”, disse ele.

“Eu desenhei um mapa de Pagford”, Rowling me disse quando nos conhecemos, no final de Agosto. “Foi uma das primeiras coisas que fiz”. Não estávamos conversando em sua casa em Edimburgo, ou em sua casa no país – que fica em meio a pastagens, com vista para um rio de corrente rápida em um vale norte da cidade – ou em sua casa em uma parte cara do oeste de Londres. Estávamos em seu escritório, que fica em um edifício georgiano sem número em uma bela rua no centro de Edimburgo, não muito longe de um café que, em zombaria aos concorrentes, pendurou uma placa onde se lê “J.K ROWLING NUNCA ESCREVEU AQUI”. O escritório tem tetos altos, tapetes turcos sobre pisos de madeira, pinturas a óleo figurativas de artistas modernos escoceses e um ar de uma pequena, mas muito bem financiada, embaixada. De acordo com o Sunday Times de Londres, Rowling vale 900 milhões de dólares.

Uma assistente havia me mostrado uma sala de frente para a sala de visitas. Rowling estava sentada à cabeceira de uma mesa polida, com uma xícara de café preto e um jornal; quando entrei, ela tirou os grandes óculos de armação preta. Estava modesta, com seu cabelo loiro puxado para trás e as mangas de seu suéter em gola-V puxadas para cima, mostrando braços sardentos. Ela parecia estar usando cílios postiços e uma base pesada. Conversamos na mesa e – depois de uma caminhada breve e chuvosa – no salão de um hotel próximo. Havia uma rigidez em toda operação, mas ela não estava hostil; ria de vez em quando e estava claramente satisfeita de poder falar sobre seu novo livro. Fazia catorze anos, calculou ela, desde que havia sido entrevistada por alguém que lera o livro iminente. Uma vez que a série Potter decolou, seus representantes mantiveram um olhar firme sobre as palavras de Rowling, a fim de aumentar o drama dos lançamentos internacionais sincronizados, e também para ajudar a suprimir a pirataria. (Foi neste contexto que, em 2005, um guarda de segurança britânico que havia roubado duas cópias de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” de um centro de distribuição do livro disparou uma arma durante as negociações para vender uma das cópias para um repórter do The Sun).

Sua vida de escritora era estranhamente autossuficiente, mesmo que, até o final da série Harry Potter, estivesse recebendo entre uma e duas mil cartas por semana. Rowling não distribuiu amplamente seus manuscritos não publicados, e seus editores parecem ter processado-os sem muita intervenção. (Neil Blair, seu agente, me disse: “Ela leva muito tempo fazendo tudo certo, então entrega um livro que não precisa de muita edição.”) Alguns anos atrás, em uma conversa com Melissa Anelli, a podcast host, Rowling criticou-se por não terminar bem “Harry Potter e a Ordem da Fênix”. “Eu não conseguia fazer a edição final que normalmente faço antes de entregá-lo aos editores, e isso fica definitivamente aparente”, disse ela, soando quase como uma autora auto-publicada. Em 2007, mais de 25 milhões de cópias de “Harry Potter e as Relíquias da Morte” foram impressas, na primeira edição, e Rowling estima que apenas sete pessoas no mundo, incluindo seus agentes britânicos e seus editores em Nova York e Londres, haviam lido o romance antes de as lojas começarem a vendê-lo.

Perguntei a ela se a publicação do novo livro a fez se sentir exposta. “Pensei que me sentiria com mais medo neste momento”, disse ela. “Não apenas porque fazem cinco anos, e qualquer coisa que escrevesse depois de Potter – qualquer coisa – iria receber um certo grau de atenção que não é inteiramente bem-vindo, pra ser honesta. Não é o lugar em que me sinto mais feliz ou mais confortável, digamos assim. Então, nos primeiros anos em que escrevia “The Casual Vacancy”, dizia a mim mesma, ‘Você tem muita sorte. Pode pagar suas contas, não tem que publicar isso.’ E esse era um pensamento muito libertador, mesmo que eu soubesse muito bem, no fundo do meu coração, que iria publicar aquilo. Sabia que um escritor geralmente escreve para ser lido, a menos que você seja Salinger.” Depois de toda a preocupação – “Christ, você terá que ir lá pra fora novamente” – ela descobriu que estava tranquila. “Eu acho que passei tanto tempo com o livro – ele é o que eu quero que ele seja”, disse ela. “Você pensa, Bem, eu fiz o melhor que pude onde estava e com o que eu tinha.” Ela riu. “O que é uma paráfrase terrível de uma citação de Theodore Roosevelt.”

Na década em que A. A. Milne publicou os livros de “O Ursinho Pooh”, ou um pouco depois disso, nos anos vinte, ele escreveu várias peças e romances para adultos, bem como uma autobiografia em que ele expandiu um pensamento expresso por um personagem em uma peça de Arnold Bennet: que, de um artista que tem sucesso com uma pintura de um policial de trânsito, é esperado que pinte policiais de trânsito para sempre. Milne escreveu: “Se você parar de pintar policiais de trânsito para pintar moinhos de vento, a crítica permanece tão dominada pela consciência policial de trânsito que até um moinho de vento é visto como algo com braços, obviamente para conduzir o trânsito.” E acrescentou: “Como um crítico exigente apontou: o herói da minha última peça, que Deus o ajude, era apenas ‘Cristopher Robin crescido’. Então, mesmo quando eu paro de escrever sobre crianças, ainda insisto em escrever sobre pessoas que já foram crianças uma vez na vida.”
Eu li “The Casual Vacancy”, que possui 512 páginas, nos escritórios da Little Brown de Nova York, depois de assinar um acordo de não-divulgação, cujo primeiro projeto – revisado mais tarde – tinha me proibido de tomar notas. (Com este livro, Rowling estava esperando por uma “experiência de publicação não muito especial”, mas essa esperança dura até agora.) Dentro de poucas páginas, ficou claro que o romance não tinha sido escrito para crianças: “A pele curtida de seu decote irradiava pequenas rachaduras que já não sumiam mais quando descomprimido.” Um pouco depois, um menino lascivo senta em ônibus escolar “com uma dor em seu coração e em suas bolas.” Mas resenhistas procurando por ecos da série Harry Potter irão encontrá-los. “The Casual Vacancy” descreve jovens crescendo em um lugar dividido por facções de guerreiros e o membro do Conselho falecido, Barry Fairbrother – que morre no primeiro capítulo mas permanece no centro moral da história – teve as mesmas virtudes, em seu mundo, que Harry teve no seu: tolerância, constância, vontade de agir.

“Acho que há um meio-termo”, disse Rowling. “Mortalidade, moralidade, as duas coisas pelas quais fico obcecada”. “The Casual Vacancy” não é um romance policial, mas, sim, uma comédia dos costumes rurais que, tendo assumido um tema social estado-da-nação, constrói-se em um melodrama negro. Sua atenção gira entre várias famílias de Pagford, no sudoeste da Inglaterra: um dono de uma mercearia gourmet e sua esposa; dois médicos; uma enfermeira casada com um tipógrafo; um assistente social. A maioria das famílias inclui adolescentes problemáticos.

As influências cívicas de Barry são reveladas pela sua partida, especialmente porque George Bailey está em “It’s a Wonderful Life”. A história é conduzida pela frustração de longa data que alguns dos vizinhos desagradáveis e de direita de Barry tinham sobre a conexão administrativa da cidade com Fields, uma área de habitação pública e pobreza na periferia de uma grande e próxima cidade. Historicamente, crianças de Fields tiveram o direito de frequentar a escola primária em Pagford, um lugar de cestas de flores e de outros confortos da classe média, e a cidade também apoiava uma clínica de tratamento de drogas que servia o bairro. Na ausência de uma influência digna à Barry, as facções anti-Fields veem uma oportunidade de livrar Pagford deste fardo. Esta é uma história de luta de classes em meio à pobreza semi-rural, à dependência de heroína e da perplexidade e sexualidade de adolescentes. Pode levar um tempo para nos acostumarmos a ler frases como “aquela miraculosamente desprotegida vagina” em um livro de Rowling, e a resposta pública à “The Casual Vacancy” sem dúvidas incluirá objeções escandalizadas à ideia de jovens leitores de Harry Potter sendo atraídos para tal material. “Não há parte alguma de mim que sente que eu representava a mim mesma como babá de seus filhos ou professora”, disse Rowling. “Eu sempre fui, acho, completamente honesta. Sou escritora, e irei escrever o que quiser escrever”.

Ela estava pronta para uma mudança de gênero. “Eu possuía um monte de material do mundo real em mim, acredite”, disse Rowling. “A coisa sobre fantasia – existem algumas coisas que você simplesmente não faz em fantasia. Você não faz sexo perto de unicórnios. É uma regra de ferro. É brega.” E então ela acrescentou, cuidadosamente, “Não que eu queira escrever sobre pessoas fazendo sexo.” Ao invés disso, começou com a ideia de escrever sobre uma eleição local, o que a deu uma “descarga de adrenalina”. A série Harry Potter teve uma história encantadora, conhecida por todos os fãs: em 1990, em um trem atrasado entre Manchester e Londres, Rowling foi dominada pelo pensamento de um menino que descobre, com 11 anos de idade, que é um bruxo. A ideia para “The Casual Vacancy” também veio para Rowling enquanto ela viajava, mas desta vez estava em um avião privado, fazendo um tour pela América para promover “Harry Potter e as Relíquias da Morte”.

“Tem sido anunciado, levemente, como uma comédia de humor negro, mas para mim é mais uma tragédia cômica”, disse ela. Se o romance tem precedentes, “seria uma espécie de século XIX: a anatomia e a análise de uma sociedade muito pequena e fechada”. Uma eleição local era “um jeito perfeito de começar”, disse ela. “É o É o bloco de construção de democracia menor possível – este minúsculo átomo em que tudo repousa.” Pode-se dizer que a política nacional não descansa em políticas locais, e que nenhuma cidade britânica moderna possui uma sociedade fechada; alguns dos personagens de Rowling podem parecer excêntricos para a seriedade com a qual as eleições locais são tratadas. Ela reconheceu que a escala de tomadas de decisão do conselho paroquial é “fácil de fazer rir”, mas disse que “parte do ponto é que as decisões que estão sendo feitas afeta dramaticamente a vida das pessoas, até colocando-as entre a vida e a morte algumas vezes.”
Ela disse, “Na minha cabeça, o título que dava certo por muito tempo era ‘Responsible,’ (Responsável), porque para mim este é um livro sobre responsabilidade. No sentido mais simples — como somos responsáveis pela nossa felicidade pessoal, e onde nos achamos na vida — mas no sentido amplo também, claro: como somos responsáveis pelos pobres, pelos desafortunados, pela miséria alheia.” Há dois anos, ela pegou o manual britânico para administradores locais. “Eu precisava dele para checar pontos tortuosos. E lá vi a frase, ‘a casual vacancy’ (uma vaga ocasional, em tradução livre), que significava quando um assento é liberado devido à morte ou escândalo. E imediatamente eu sabia que esse seria o título… eu estava lidando não só com responsabilidade, mas com muitos personagens que têm essas pequenas vagas em suas vidas, esse vazio, que estão sendo preenchidos de várias maneiras.”

Ela continuou, com alguma paixão, “E é a morte! A vaga ocasional, a casualidade que vem com a morte. Você espera um alarde, algum tipo de grandeza para isso. E, sabe, a primeira grande morte com que sofri foi a de minha mãe, e isso foi chocante: ela havia ido.”

Rowling não é uma reclusa: ela leu durante a abertura das Olimpíadas de Londres; ela foi a falante inicial de Harvard em 2008; apareceu em um documentário televisivo sobre sua árvore genealógica. Mas ela não é parte da vida cultural britânica de todos os dias. (“Não sou uma participante natural,” ela me disse.) Seu cânon de não ficção tem apenas alguns milhares de palavras, e inclui uma única resenha de livro — ela elogiou a escrita de Jessica Mitford, a escritora britânica e ativista de esquerda, que dá nome a sua filha mais velha — e um pequeno ensaio em uma coleção de discursos de Gordon Brown, o Primeiro Ministro do Trabalho que ela admira, e de cuja esposa, Sarah Brown, é amiga. Ela deu acesso limitado à sua história pessoal, e em entrevistas tem enfatizado as mesmas coisas: uma amiga durante sua adolescência que as livrou ao ter acesso a um Ford Anglia, o mesmo carro dirigido por Rony Weasley, amigo de Harry Potter; a viagem de trem que levou Harry a ela; o período difícil período como mãe solteira nos anos noventa. No ano passado, a Lifetime construiu uma biografia desses fragmentos, preenchendo os espaços com aproximações erradas de uma infância de classe média em West Country nos anos sessenta e setenta: no filme, a escola secundária de Rowling tem troncos de madeira exposta, e pessoas dizem “Eu te amo” ao final de ligações telefônicas.

O pai de Rowling era um engenheiro na planta de engenharia de aeronaves de Rolls-Royce em Bristol, e Rowling e sua irmã mais nova, Dianne, passaram seus primeiros anos em vilas perto dessa cidade, que fica a duas horas a oeste de Londres. Quando Joanne tinha nove anos, a família se mudou um pouco mais para o oeste, para o limite da Floresta de Dean, um distrito mais rural e menos próspero. Nenhum dos pais de Rowling foi para a faculdade, mas a família de sua mãe era de classe média e culta; a tia-avó de Joanne, Ivy, era professora do clássico e apresentou Joanne à escrita de Mitford. Os Rowling agora viviam em uma linda cabana gótica, na vila de Tutshill. “Meu sotaque não era da Floresta de Dean, embora tenha se tornado, acredite, rapidamente,” Rowling disse. Seu sotaque ainda é flexível, e em uma hora de nossa conversa ela exclamou como uma escocesa: “Och!” Ela disse que, depois da mudança da família, “Eu sempre me senti uma forasteira.” Há um adolescente londrino desrraigado e ressentido em “The Casual Vacancy,” e Rowling disse que é um autorretrato parcial.

Diferente dos outros membros de sua família, Rowling regularmente frequentava trabalhos na igreja ao lado de casa. Aos onze anos, ela se matriculou na Wyedan, uma nova escola secundária. Sua mãe — uma mulher de ascendência francesa e escocesa com um sorriso que era um pouco distorcido, como o de sua filha— trabalhou na escola mais tarde, como técnica no departamento de ciência. Steve Eddy, que ensinou Inglês a Rowling quando ela chegou, e desde então se tornou um autor interessado em mitologia e astrologia, lembra-se de Joanne como “não excepcional”, mas “uma de um grupo de meninas que eram inteligentes, e boas em Inglês.” Referindo-se à amiga de Harry Potter, ele disse, “Você podia dizer que ela era um pouco como a Hermione. Eu fazia uma pergunta, e algumas mãos se levantariam, e ela era certamente uma do grupo.” Ele lembrou que a calasse leu “Joby’’ de Stan Barstow – uma história realista sobre um garoto do Norte da classe operária — assim como “The Weirdstone of Brisingamen,” de Alan Garner (um bruxo, anões, bruxas), e “A Wizard of Earthsea,” de Ursula K. Le Guin, cujo herói frequenta uma escola para bruxos. Eddy disse que Rowling, ao escrever histórias, produzia mais fantasia que os outros alunos. Naquela época, ela gostava de um pouco de realismo.

Vários personagens-chave em “The Casual Vacancy” estão no meio da adolescência, e o romance parece melhor quando eles aparecem. Esta é, em parte, uma questão de grupo e movimento; esse é o ponto forte do livro, pois pode seguir esses personagens em viagens de ônibus, em bicicletas, e pelos corredores da escola; seus pais, obviamente, são menos dinâmicos. Mas Rowling também parece profundamente conectada com seu eu adolescente. (“Eu me pergunto o que isso diz sobre meu desenvolvimento?” ela perguntou.). Um tema bem observado e recorrente é o instinto adolescente de adotar, e achar conforto nas famílias dos outros – assim como Harry Potter adotou os Weasley. Rowling se referiu à Jessica, sua filha do primeiro casamento, que é agora uma estudante universitária, mas que até recentemente, fazia parte um grupo de amigos que se mudava “de casa para casa, todos simpáticos com os pais dos outros.”.

Rowling disse que “odiou” ser adolescente, mas então se criticou pelo exagero, e começou de novo: “Eu não era particularmente feliz. Acho que é uma época ruim da vida.” E continuou, “Eu vim de uma família difícil. Minha mãe estava muito doente e não era nada fácil.” Em 1980, quando Rowling tinha quinze anos, sua mãe recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla. Morreu uma década depois, aos quarenta e cinco anos. Ás vezes Rowling falou publicamente sobre seu luto, e a frustração de que sua mãe nunca soube de sua carreira de escritora. (Além de outras atividades filantrópicas, Rowling fundou a Clínica de Neurologia Regenerativa Anne Rowling, na Universidade de Edimburgo, com um presente de dezesseis milhões de dólares.) Quando Rowling fez parte de um episódio emocionante de “Who Do You Think You Are?,” (“Quem Você Acha Que É?’’, em tradução livre), a série de TV sobre genética, a pesquisa era na área maternal, com atenção especial ao bisavô francês dela, Louis Volant. O programa mostrou o desconforto de Rowling ao descobrir que ele não tinha recebido um já que uma linhagem da família o tinha; ela repetiu isso em um discurso em 2009, ao receber seu próprio Légion d’Honneur. E isso revelou seu orgulho ao descobrir que Volant ganhara uma Croix de Guerre, pela coragem, na Primeira Guerra Mundial. “Meus filhos sabem pouco do meu lado da família,” Rowling me contou. “Eu me casei com alguém que tem uma grande família escocesa – um clã – que é fabulosos e que eu adoro, e os amo, mas eu queria ter algo que pudesse mostrar aos meus filhos e dizer, ‘Olha, eu também tenho uma família, também tenho um fundo.’ Pois há pouca gente viva na família de minha mãe. Eu tenho uma irmã e isso é muito importante, mas além de nós, quase todos já se foram.”
O programa não mencionou o pai de Rowling, Peter. Um dos personagens mais interessantes em “The Casual Vacancy” é Andrew, um adolescente incansável que tem um pai abusivo. “A ideia romântica de Andrew que ele irá viver nas ruas cheias de grafite e de janelas quebradas de Londres – essa era eu,” Rowling disse. “Eu pensei que precisava sair deste lugar. Então todas as minhas energias foram para isso.” Ela disse antes que seu pai a assustava. Quando perguntei sobre ele, Rowling respondeu, “Eu não tive uma relação fácil com meu pai, mas ninguém em ‘The Casual Vacancy’ é um retrato de alguma pessoa viva.” Eu perguntei se ela estava escrevendo de sua própria experiência quando Andrew, depois de machucar seu pai, vai fazer as pazes com ele.

“De certo modo,” explicou. “Se você tivesse estado ali, se você já esteve em uma situação familiar complexa e difícil, você entenderá. Eu suponho que seja como uma síndrome de Stockholm, certo? Você tem que fazer amizade com os carcereiros, – é uma questão de sobrevivência. E Andrew, tendo lidado com seu pai desse modo, muda e sente que é hora de fazer uma aliança. Eu acho que isso é psicologicamente exato. Alguns não irão concordar.”

Seu pai se casou dois anos depois da morte de Anne Rowling. Ele foi ao casamento de Joanne com Neil Murray em 2001, na Escócia, mas pararam de se falar dois anos depois. “Não nos falamos há nove anos,” Rowling me contou. Ela disse que o rompimento já havia acontecido no Natal de 2003 quando Peter Rowling pôs suas primeiras edições de Harry Potter à venda na Sotheby’s; alguns não foram vendidos mas outros sim, incluindo um exemplar de “’Harry Potter e o Cálice de Fogo’’, dado a ele no Dia dos Pais em 2000 e autografado, “Com muito amor de sua primeira filha’’, com o desenho de uma mão tentando pegar um gnomo que corria. Foi vendido por quarenta e oito mil dólares.

Apesar da difícil vida doméstica de Rowling, ela ia bem na Wyedean, quando apenas uma minoria dos alunos ia para a faculdade. Mas ela subestimou a conquista de ter sido uma garota estudiosa, indicada por autoridades escolares. Ela disse que significava, “Nós pegamos você fumando uma vez no ponto de ônibus, e achamos que provavelmente você não irá para Borstal – centro de detenção juvenil. (Steve Eddy, o professor, não acha que a escola era tão rígida). Em 1982, ela prestou os exames de ingresso na Oxford, mas não foi aceita, e em vez disso estudou Francês na Exeter, uma universidade com reputação de ser “totalmente chique,” nas palavras de Rowling. De repente ela estava no meio de garotas que haviam vindo de escolas particulares, com pérolas e golas de camiseta viradas para cima. 

Parafraseando Fitzgerald, ela disse que reagiu à Exeter “não com a raiva dos revolucionários, mas com o ódio ardente dos camponeses.” (Há um pouco desse espírito no retrato ácido dos jovens altivos da Casa Sonserina em Hogwarts, a escola do Harry.) Martin Sorrell, então um professor de Francês na universidade, lembra-se de uma estudante competente e quieta, com uma jaqueta jeans e cabelo escuro, que, em termos acadêmicos, “dava a impressão de fazer o necessário.” Ela lembra-se de que “não estudava de qualquer forma.” Ela usava muito delineador, ouvia os Smiths, e lia Dickens e Tolkien. Em retrospecto, ela acha que teve sorte de não entrar em Oxford: “Eu estava intimidada o suficiente pela Exeter. Imagine – eu teria caído aos pedaços em Oxford, nunca teria aberto minha boca.” Ou será que ela teria ficado academicamente inspirada? “Bem, teria sido legal,” respondeu, rindo.. “Isso não é terapia! Não quero falar de ressentimento eterno.”

Depois de se formar em 1986, ela trabalhou um pouco na Anistia International em Londres, na mesa de pesquisa da África francófona. Em 1990, ela teve a inspiração para Harry Potter, e começou a desenvolver um plano detalhado para uma série de sete livros. Ela também trabalhou em um romance adulto que nunca foi terminado. Naquele ano, sua mãe morreu. Em 1991, conseguiu um trabalho de professora de inglês em Portugal. “Era lutar ou fugir,” declarou. “Eu estava saindo de uma fase horrível. Um monte de coisas aconteceu de uma vez. Minha mãe morreu, o que era o pior. Um longo relacionamento acabou – e mais um monte de coisas,’’ incluindo ser despedida de um trabalho de escritório em Manchester. Em Porto, ela conheceu e se casou com Jorge Arantes, um jornalista. Ela dava aulas à noite, e durante o dia escrevia e ouvia o Concerto de Violino de Tchaikovsky. Jessica nasceu no verão de 1993, e o relacionamento com Arantes acabou logo depois. Ele foi citado uma vez no Daily Express descrevendo a última noite deles; ela disse que ele a arrastou da casa deles às cinco da manhã e a espancou.
Rowling me avisou para não pensar no período em Portugal e seu primeiro casamento, como uma experiência impetuosa digna de remorso – um desmaio digno de E. M. Foster no sul da Europa. “Eu concordo com você que ir a um lugar quente quando se é britânico sempre parece uma boa ideia,” disse. Mas “certamente essa não foi a primeira coisa impetuosa que fiz… eu fiquei nesse lado por um bom tempo. Não foi a Hermione que de repente eclodiu.”

No fim de 1993, voltou à Grã-Bretanha com Jessica, e passou o Natal em Edimburgo com sua irmã, que trabalhava lá como enfermeira. Rowling, que não tinha mais um casaco de inverno, tinham três capítulos de “Harry Potter e a Pedra Filosofal’’ em sua mala.

Estávamos sentadas no lounge do hotel, em cadeiras vermelhas. Em um bairro cheio de cafés, ela me trouxera para uma sala vazia. Ela se lembrou de sua chegada em Edimburgo. “Eu estava muito deprimida,” contou. “Parecia que a vida era um acidente de trem. Eu tinha tido este bebê, e estava neste lugar que era muito estranho e frio, e um pouco assustador.” Ela decidiu ficar, com a intenção de virar professora; ela precisaria completar um curso treinamento de um ano, mas decidiu adiar a matrícula até terminar seu livro.
Inscreveu-se para benefícios sociais, e achou um apartamento desagradável, onde morou por alguns meses. “Estava tentando escrever durante aquela época, e consegui,” contou. “Mas era trabalhoso e produtivo e às vezes eu não tinha a atenção necessária para isso.” (Rowling escreveu um grande mapa astral ilustrado para o filho recém-nascido de uma amiga.) Ela disse, “Era a Jessica — tive que dar muito crédito a ela — que me dava a coragem de dizer a um médico, ‘Eu acho que não estou bem, preciso de ajuda. ’ isso fez muita diferença..” Ela começou a terapia, e “pressionada com o livro, e vieram mais coisas. Pelo menos, na minha cabeça. Externamente, minha vida pode não ter parecido muito melhor. Meu amigo, espero que ele não se importe se eu disser, meu amigo mais antigo, Sean, me emprestou um depósito em um apartamento alugado que era muito melhor.” (Sean Harris foi o amigo da Wyedean que tinha acesso ao Ford Anglia.) “E, sabe, as coisas mudaram lentamente.” Ela terminou “Harry Potter e a Pedra Filosofal’’ em 1995, um pouco antes de começar seu treinamento como professora. “O fato de ter minha filha me forçou a terminar o livro,” contou. “Não porque eu pensava que ia nos salvar, mas sim porque achava que seria minha última chance de terminá-lo.”

Em “The Casual Vacancy,” Krystal Wheedon é uma adolescente do Fields, o projeto de habitação perto de Pagford, e ela é a cabeça de uma família que inclui um irmão mais novo e a mãe deles, viciada em heroína. As descrições de Rowling da família são quase ostensivamente constantes: drogas, prostituição, o cheiro de fraldas. Um visitante percebe, no jardim da frente, “uma camisinha usada, brilhante na grama atrás de seus pés, como o casulo branco de uma grande larva.” Ninguém nunca conseguiu construir uma vida em Fields, nem fazer piadas, nem esperava nada além da salvação de Pagford e da classe média; a empatia de Rowling pode parecer condescendência. Mas não há dúvida de que ela entende os extremos da pobreza britânica, de fontes que incluem a experiência do marido dela como clínico geral em uma clinica para viciados em drogas de Edimburgo. (Ele agora clinica em outros lugares.)
Rowling imitou jornalistas que, em sua visão, dramatizam demais seu período de dificuldades – “Eu ri de um jeito idiota,” ela disse, depois de um repórter sugerir que ela não tinha dinheiro para comprar papel para escrever – mas ela contribuiu para essa confusão. Em 2008, em um tribunal de Nova York contra a publicação de uma enciclopédia não autorizada de Harry Potter, testemunhou que houve vezes em que estava “literalmente escolhendo entre comida e uma máquina de escrever.” Descreveu seu primeiro ano em Edimburgo como uma época de “dura miséria,” ou “miséria pungente.” Tal modo de falar parece apagar a distinção entre sua vida e a de Krystal Wheedon. Quando falou em Harvard, declarou que estava partida “como é possível estar na Grã-Bretanha moderna sem estar desalojada.”

Esse autorretrato – e o fato de falar da vida com beneficio social como “a coisa mais destrutiva’’ – pode refletir o embaraço tipicamente britânico sobre sua escala de ganhos nos últimos quinze anos. Equilibra uma posição de boa e má sorte. Sua conta de desespero econômico e sua recuperação podem ter também uma razão politicamente nobre: Rowling defendeu publicamente o setor de ajuda de bens britânico contra a ameaça de cortes. E é verdade dizer que era uma mãe solteira desempregada, em más condições de vida, em uma época de muito desemprego. Alguém poderia entender que ela não queria que esse período fosse confundido com folga – e sua depressão pode ter atrapalhado as vantagens que tinha sobre outros britânicos desempregados. Mas essas vantagens são claras em retrospecto: ela era uma graduanda de classe média, a fim de começar uma carreira de professora, que recebia ajuda do governo enquanto terminava um romance, enquanto escrevia num café que era do marido de sua irmã. (Tais benefícios do governo – para moradia e custos de vida – era mais acessíveis a jovens graduandos britânicos no começo de uma carreira profissional do que nos Estados Unidos.) Isso é difícil de classificar como extrema pobreza. Ela disse, “Tive que decidir entre entregar meu bebê para outra pessoa cuidar nas horas em que estava acordado, ou de ser cuidado por sua mãe, longe do luxo. Escolhi a última opção.” Como disse, depois de seu tempo em Portugal, “Não havia erro. Eu voltei com um plano, definitivamente.”

“Caro Sr. Little,” Rowling escreveu, em carta de 1995. “Estou mandando uma sinopse e alguns capítulos de um livro destinado a crianças de 9 a 12 anos. Ficaria grata se pudesse me dizer se estaria interessada em ver o manuscrito inteiro. Atenciosamente, Joanne Rowling.”

Christopher Little, um agente literário londrino e misterioso, olhou o projeto dela. Um ano mais tarde, fez um contrato modesto com a Bloomsbury, uma editora britânica que tinha apenas uma década de existência.“Harry Potter e a Pedra Filosofal” veio à tona em 1997, com uma impressão inicial de quinhentos exemplares. Ganhou o prêmio Children’s Book of the Year no British Book Awards, e um prêmio de ouro da Nestlé, cujos votantes são crianças. Os direitos do livro foram vendidos para a Scholastic, em Nova York, por mais de cem mil dólares. Rowling comprou um apartamento. Ela publicou o segundo livro, “Harry Potter e a Câmara Secreta,” em 1998.

Maria Tatar, uma especialista de Harvard em literatura infantil, me disse recentemente, “Demorou anos para eu gostar de Harry Potter.” Ela agora inclui o último livro em curso de graduação chamado “Fairy Tales and Fantasy Literature.” (Contos de Fadas e Literatura Fantástica, em tradução livre). Quando leu os livros pela primeira vez, “não conseguia lembrar de nada’’. Então ouviu os livros de áudio. “De repente, eu entendi – pude lembrar, visualizar. Uma grande parte é diálogo, e não explora as mentes dos personagens. São as conversas e as ações que levam a história para frente.” Você se sente na pele de um bruxo —“Você está junto de Harry”— embora tenhamos pouco acesso à mente dele.

Ela continuou, “É uma estranha combinação entre superficial e profundo. É isso que as pessoas esquecem na literatura infantil. É orientada pela superfície, mas os ótimos escritores, como Rowling, conseguem ser profundos, também” — vida e morte, bom e mau. “Não é uma profundidade psicológica, e sim mitológica.”

Os alunos de Tatar cresceram com os livros. “Você não imagina o que acontece quando eu digo ‘Harry Potter”, disse. “Eles são transportados. E começam a falar de Harry Potter entre eles, e me sinto uma alienígena.’’ A maioria de seus estudantes relata que, quando crianças, eles aprenderam por causa da imagem que é feita de Hogwarts. “ Isso mudou a compreensão deles sobre a educação – e sobre os adultos. Eles poderiam recrutar esses adultos para ajudá-los a acertarem suas vidas’’.


Rowling me disse, “Recentemente, encontrei uma garota numa loja. Ela tinha vinte e poucos anos, e veio até mim e disse, ‘Posso te abraçar?’ Eu disse sim, e nos abraçamos. E ela disse, ‘Você foi minha infância’. Isso é algo maravilhoso de se ouvir’’.

Algumas pessoas acham isso desencorajador. Em Edimburgo conheci Alan Taylor, um jornalista e editor da Scottish Review of Books, que se exasperou com o “ouvido bom’’ de Rowling e disse que seus leitores, “Estavam dando sua infância a essa mulher! Começavam aos sete anos, e aos dezessies continuavam lendo o sangrento Harry Potter – adolescentes de dezesseis anos, usando roupas de bruxos, que deveriam estar transando atrás do galpão de bicicletas e fumando maconha e lendo Camus.”

Os livros de Harry Potter não são rebeldes. Eles validam as preocupações das crianças normais: fascínio com professores estranhos, a aflição sobre valentões, desejo por objetos de status. (Vassouras substituem os mais recentes produtos eletrônicos.) E Harry, para todos os Dickensian traumatizados debaixo-da-escada em sua juventude, começa a série como um vencedor; rico, atleticamente adepto, e famoso. O respeito de Rowling pelo mundo jovem nunca vacila, e seus personagens não aprendem seus caminhos para sair dele. Sua conquista é transferir os dramas do cotidiano de aluno em um universo paralelo imaginado abundantemente. Rowling descreve pelo menos quatro maneiras, incluindo cabos de vassoura, para mover magicamente de lugar para lugar. Ela usa dezenas de feras de cânone mitológico e estabelece novos mitos com matéria-de-fato fácil. (A ideia de um ofidioglota – uma pessoa que pode falar com cobras – parece antiga e completamente formada.) Ela usa dispositivos de enredo para abastecer inúmeras comédias românticas: um soro da verdade, transfiguração, viagem no tempo, invisibilidade, imortalidade, alquimia. Os leitores da série viveram com Harry, mas também com Rowling, como um quase visível engenheiro de uma grande máquina de fantasia, no decurso de sete volumes, funciona com suavidade notável. Mesmo jovens entusiastas parecem se tornar críticos textuais de um tipo de alerta para a ideia de um autor, em uma mesa, tomando decisões sobre quem deve viver e quem deve morrer.
“Eu acho que isso é muito da resposta das crianças a essa sensação de que alguém estava no controle”, disse Rowling. “Que eles estavam caminhando em um lugar onde eles sabiam as regras, ou havia regras a serem descobertas”. Há pouca ironia, e o leitor raramente sabe mais ou menos que Harry. Nos sete romances, o Natal cai sempre no meio do caminho. Stephen King e outros brincaram com Rowling pelo uso excessivo de advérbios ao descrever um discurso. O hábito parece mostrar uma determinação para não ser mal interpretado. Assim também, de certa forma, ela faz suas repetições. (Mais algumas centenas de páginas, como Harry entra na adolescência, Diggory fica avermelhado, Harry fica avermelhado, Rony fica avermelhado, e Fudge fica avermelhado; Percy fica um pouco rosa, então muito rosa; Hermione está levemente rosa; Malfoy está levemente rosa e então brilhantemente rosa; Hermione está muito rosa e então bastante rosa; Colin também fica rosa; Hermione está, novamente, levemente rosa; então é Rony, e então Hermione; e então ela corou rosa com prazer; Lilá enrubesce, seguida por Hagrid e Hermione.) E se as metáforas de Rowling eram às vezes forçadas – “como uma flor que cresce rapidamente bizarra”; “como um caranguejo esquisito” – pode ser porque metáforas te levam para longe, por um momento, do lugar onde a história o colocou. O objetivo de Rowling era mantê-lo lá.

A consciência de Rowling sobre o enredo quase a levou a mesma relação com seu material como um fã obsessivo fez. Ian Rankin recordou ter esbarrado nela um dia, em um café em Edimburgo: “Foi incrível vê-la, escrevendo à mão, fazendo esta árvore da família para um personagem. Eu não posso imaginar outro autor que eu conheço indo para esse tipo de detalhe para algo que não estará na página”. Era como um video game aonde você nunca chegou à beira da paisagem rendido. Apesar do rigor nos ajustes finais em “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, e seu epílogo estendido, há muito que Rowling sabe, mas não escreve. Em 2007, após o último livro ser publicado, ela anunciou que Dumbledore, o diretor de Hogwarts, era gay. Eu a perguntei se Duda, primo de Harry, teve algum filho quando adulto, e ela me disse que ele teve dois.
“Nós inventamos a expressão ‘comercialização negada’” Minna Fry, diretora de marketing da Bloomsbury, recentemente disse da série. “Quanto mais as pessoas querem, menos você dá”. Antes de cada publicação, ela disse “ficamos extremamente tentados em lançar pequenas pepitas”. Ela riu. “Se você fosse realmente sortudo, você teria o título!”.

Como Fry lembra, o fenômeno mudou de carácter com o aparecimento do quarto livro, “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, no verão de 2000. Foi a primeira vez que a publicação de um livro de Rowling foi sincronizada através do Atlântico. Entre eles, Bloomsbury e Scholastic imprimira uma primeira edição de mais de quatro milhões de cópias.

Bloomsbury enfeitou um trem a vapor como o Expresso de Hogwarts, e levou Rowling em todo o Reino Unido, Bloomsbury ainda era uma pequena companhia; Fry encheu sozinhos os balões. “Nós não tínhamos administradores de eventos”, ela disse. No primeiro dia, ela e seus colegas ficaram admirados como tamanho das multidões em King’s Cross. “Nós não podíamos até mesmo chegar à estação. Você pode imaginar como seria agora, com o Twitter?” Fry achou um repórter de uma revista de notícias estadunidense escondido no depósito de carvão atrás da máquina de vapor, com o rosto sujo de preto.

Quando o trem fazia as paradas, as crianças esperando uma audiência com Rowling entraram em seu carro de trilho em uma extremidade, e saiam na outra com um livro assinado. Como Fry lembrou, “Havia pais batendo em outros pais para entrar na fila”. Em uma parada cercada, Fry foi a isca de Rowling, acenando para a multidão através de uma janela na frente do trem, enquanto Rowling escapou pela parte traseira.

Fry disse que Rowling estava perturbada pela desordem da tournée. “Ela amava partes dela. Mas eu não acho que nenhum de nós percebeu muito bem o quanto que ela estava apavorada”. Fry só percebeu isto mais tarde. “Ela estava muito pálida sobre alguma coisa que achamos que foi engraçada. Eu acho que ela pensou que a colocaríamos em perigo”.

Fry desfrutou de uma relação amigável com Rowling, mas depois que o livro de lançamento de Rowling “começou a ter essas camadas de pessoas protegendo-a”. Ela contratou sua própria equipe de relações públicas, e tornou-se um pouco sequestrada por trás “de pessoas que eu acho que a fizeram se sentir segura”. Ao contrário de antes, “não fomos capazes de colocá-la para cima e conversar. Mas ainda estava tipo, engraçada – muito engraçada – e um pouco confuso com a coisa toda. E continua merecedora de todas as coisas boas”. Fry lembrou que foi atrás de Rowling e seus filhos, não muito tempo atrás, em um parque de Londres. Fry apresentou seu filho mais jovem (que disse, “Você não é J.K. Rowling!”), e ele ficou impressionada pela força da atenção de Rowling sobre ele. “Ela estava fascinada por tudo que ele estava fazendo, o que ele estava vestindo. Ele tinha um brinquedo. Ela quis saber como funcionava, tudo sobre ele”.

Quando eu perguntei a Rowling sobre o período depois de “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, ela disse, “Esse foi um momento muito difícil para mim. A pressão tornou-se avassaladora, na verdade. Eu achei difícil escrever, que nunca aconteceu comigo antes em minha vida. A intensidade da apreciação foi esmagadora. Eu estava totalmente despreparada para isso. E eu precisei dar um passo para trás. Foi extremamente necessário dar um passo para trás”. Ela tinha publicado quatro livros em quatro anos. “Eu disse à Bloomsbury, ‘Não vai haver um livro no próximo ano, eu não posso fazê-lo’, e eles foram excelentes em relação a isso. Ela terminou em três anos. Assim foi 2000 para ‘Cálice de Fogo’, e 2003 para ‘Fênix’”. Naquele tempo a Warner Bros. começou a lançar filmes baseados nos romances – com um elenco predominantemente britânico, graças em parte à pressão de Rowling. Os filmes têm feito desde então US $ 7,7 bilhões.

Ela também conheceu Neil Murray, um amigo de sua irmã. Rowling resistiu para ceder. “Ele estava fora de si mesmo em um casamento – eu apenas pensei que seria complicado. Eu não estava pronta para isso”. Mas eles finalmente encontraram-se sentados ao lado um do outro em um evento de caridade em Edimburgo. Ele estava ciente dos livros de Harry Potter, mas não os tinha lido. O casal tem um filho e uma filha juntos. Alguns anos atrás, uma equipe de documentário viajando com Rowling gravou o que parece ser o único comentário público de Murray sobre sua esposa: “Jo destaca-se”, ele disse, em seu ouvido, com um sorriso. “Quando ela está muito estressada, ele se separa e só confia em uma pessoa, e que é ela mesma. Então todo mundo fica bloqueado e ela se torna mais e mais estressada e menos capaz de aceitar qualquer ajuda”.

No ano passado, Rowling apareceu no Inquérito de Leveson sobre a conduta da imprensa britânica, criado pelo governo em resposta às revelações sobre repórteres hackeando a caixa de entrada do correio de voz de celebridades. Ao longo de meses, dezenas de atores, políticos, e jornalistas ofereceram provas para o inquérito; Rowling apareceu no mesmo dia que Sienna Miller, a atriz, e Max Mosely, um ex-administrador de carros de corrida. Mosley descreveu estar sendo secretamente fotografado com cinco mulheres em um cenário que o News of the World descreveu, falsamente, como uma representação de uma fantasia sexual nazista relacionada com prostitutas. Miller disse que, por anos, ela teve de lidar com dez ou quinze paparazzis fora de sua casa; seu telefone foi cortado por eles, e até cuspiram nela para provocar uma reação. Seu telefone foi grampeado. Mas Miller teve o cuidado de enfatizar que outras pessoas, incluindo a família de Milly Dowler, uma adolescente assassinada cujo telefone fora grampeado após seu desaparecimento, tinha experimentado coisas piores.

As provas de Rowling foram menos surpreendentes, mas foram entregues em um tom mais sofrido, prejudicado. Pode ser que, porque Rowling é muito modesta, ela não pensou em aprender a arte de parecer modesto em público. (Na verdade, a sua postura em público é muitas vezes a de alguém prejudicado: ela descreveu-se comprando um grande anel de água-marinha como um “ninguém irá me deixar para baixo” gesto feito em resposta à cobertura sensacionalista, e tem caracterizado a mudança de um apartamento para uma casa muito grande como “expulsa” pela imprensa.) Ela disse ao inquérito que, quando Jessica tinha cinco anos, ela uma chegou da escola com um bilhete de um repórter em sua mochila, aparentemente colocado lá pela mãe de um colega de classe. Não se pode argumentar com a infelicidade de Rowling sobre o episódio, mas parece um mau exemplo das artes mais escuras da Fleet Street. Alguns anos mais tarde, Rowling foi fotografada em uma praia pública em Mauritius. Uma imagem publicada mostrou Jessica, quebrando uma regra da imprensa britânica sobre fotos de paparazzi de crianças. (Não foi republicado.) Mais recentemente, Rowling e Murray foram fotografados em uma rua de Edimburgo, e a foto publicada mostrou o rosto de seu filho, David, com 19 meses na época.

Rowling tem outras histórias para contar, e falar do fardo de ter de tomar medidas preventivas para evitar mais intrusão. Mas quando ela escreveu, em seu depoimento, que “Dói-me que a minha família e eu não pareça termos a opção de viver nossas vidas da mesma forma que outros membros do público em geral vivem”, a mais rica romancista na história talvez tenha pedido demais. Ela e sua família passaram uma noite privada na Casa Branca, e ela me disse que as filhas de Obama gostam de seus livros. Em todo o mundo, fãs a chamam de “Minha Rainha”. E se Rowling, pelos padrões de sua fortuna, vive muito modestamente – Ian Rankin disse isso a ela, em sua posição, ele compraria um helicóptero e máquinas de pinball banhadas a ouro – documentos públicos mostram isso, que para expandir os terrenos de sua casa em Edimburgo, ela recentemente comprou e demoliu uma moderna casa de US $ 1,6 milhões que estava ao lado.

Seu desconforto com a fama pode lhe dar o ar de ser mais de ser menos celebridade do que aqueles com quem ela está se dirigindo. Incentivada pelo Lorde da Justiça de Leveson para fazer recomendações para a reforma, ela disse, “Eu não posso fingir que tenho uma resposta mágica”, e acrescentou, “Sem intenção de ser uma piada de Harry Potter”.

Se Rowling se tornou enraivecida pela mídia, o sentimento foi recíproco. Quando o Times londrino a entrevistou em 2003, foi solicitado que ela assinasse um contrato, de acordo com uma conta escrita mais tarde por Brian MacArthur, onde o editor-executivo do jornal, “estipulou precisamente quando a entrevista iria ocorrer e quem seria o entrevistador e fotógrafo; como e onde seria anunciado e promovido no jornal e no rádio; e deu a Rowling total aprovação de legendas, manchetes, slogans publicitários, desenhos, gráficos, títulos, material antecipado, citações e fotografias.” Apenas antes da publicação houve algo cansativo, o argumento de seis horas nos escritórios do Times sobre o que, exatamente, se queria dizer com “aprovação de citação”. “Rowling foi representada por Neil Blair, um advogado britânico e um ex-executivo da Warner Bros. que trabalhou nos filmes de Harry Potter, e que se juntou a agência de Christopher Little em 2001. Blair disse isso na entrevista em que Rowling falou insuficientemente sobre seu contrato com a Bloomsbury, e, ao insistir que a citação precisava ser revisada, tomou uma posição que MacArthur achou extraordinariamente agressiva. MacArthur escreveu em seu artigo que isto “nos deixou sentindo sujos”, acrescentando, “a nossa autoestima foi erodida, nossa integridade jornalística insultada.” Minna Fry, que também esteve no encontro, disse que ela foi, às vezes, “surpreendida pelo que Neil estava fazendo”, e teve suas mãos em sua cabeça. “Eu percebi o quanto já estava em jogo”. Blair, relembrando esse dia, disse que iria “jurar na Bíblia que não fui agressivo em tudo”. (Para este artigo, Rowling procurou ter a aprovação das citações, que não foi dada.)

No verão passado, Neil Blair deixou Christopher Little e criou sua própria agência. Rowling se juntou a ele como cliente astro da Parceria Blair. Declaração de Little, na época, era que ele estava “desapontado e surpreso”. Como Rowling descreveu para mim, “Neil e Christopher chegaram a um ponto em que não estavam mais trabalhando, os dois juntos, e eu tive que tomar uma decisão. Foi muito, muito difícil”.

Muitas histórias de crianças amadas descrevem uma aventura em um reino sobrenatural ou de sonho, e então um retorno – com lamento, ou gratidão, ou ambos – para o dia-a-dia. Mas nós sabemos que Harry Potter será um bruxo em seu leito de morte. Para todo o encerramento satisfatório fornecido por “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, os leitores mais sombrio podem ainda detectar uma nota de melancolia; há uma estreiteza de vida aos ex-alunos de Hogwarts, cujas oportunidades de carreira mal se estendem além do serviço civil bruxo, educador bruxo, e quadribol profissional. Esta sociedade mágica não tem utilidade para a ciência; há pouco comércio; e milhares de anos de bruxos parecem não ter gerado nenhuma cultura além de um volume pequeno de fábulas e um tabloide. (A tecnologia bruxa é frequentemente uma aproximação graciosa da tecnologia não bruxa – corujas por e-mail – e cada um se pergunta sobre o quão rapidamente Harry e seus colegas de escola poderiam ter vencido suas batalhas contra o maligno Lord Voldemort, dando dois ou três celulares e uma arma.) Em um tempo de paz bruxa, pelo menos, a separação de Harry do mundo real – mesmo que ele viva nele – pode parecer trágica.

Quando eu perguntei a Rowling se ela já se arrependeu de não ser capaz de trazer Harry de volta para a normalidade, ela disse sobre ele com passividade surpreendente: Harry era um personagem com mais responsabilidades do que qualquer pessoa que ela conhecia. No papel dado a ele, ela disse, “Harry tem essa sorte de qualidade Galahad. Parece que você não pode escapar.” Embora fosse possível imaginar Rony Weasley, amigo de Harry, abraçando uma existência trouxa, “Harry, como um personagem, não pode. A pessoa que está liderando a busca. – Parece que eles têm essa pureza estranha sobre eles. E, afinal, se Harry realmente tinha passado por tudo o que ele passou, ele provavelmente não seria mentalmente saudável o suficiente para viver em qualquer lugar, não é?”.

Nós estávamos caminhando ao longo de uma rua molhada em Edimburgo de bares e lanchonetes, cercada pela construção de uma nova linha de eléctrico. Rowling usava uma capa de chuva bege e botas stiletto de salto alto. Ela parecia alguém que seria grato por retornar para uma vida de pré-aventureiro. Se referindo ao apartamento em Edimburgo onde ela terminou seu primeiro livro, o que ela conseguiu com o empréstimo de Sean Harris, ela disse, “Às vezes sinto que tudo o que aconteceu desde que deixei o apartamento é um pouco irreal. E é aí para aí que eu voltaria se tudo desaparecesse.” Uma vez ela teve a ideia de publicar “The Casual Vacancy” anonimamente, mas percebeu que seu anonimato seria de curta duração. “Na última análise, eu pensei, ‘Supere-se, apenas o faça’.” Ela está trabalhando em dois livros “para crianças um pouco mais jovens” do que os leitores de Harry Potter, e ela começou seu próximo romance adulto – embora ela tenha escrito apenas “um par de capítulos” a história “é muito bem representada”.


“The Casual Vacancy” certamente irá vender, e também provavelmente será gostado. Há muitos bons toques, incluindo o retrato de Rowling do namorado covarde da assistente social, que saboreia de técnicas como, em uma discussão com um amante, você pode “obscurecer uma questão emocional para parecer que está buscando precisão”. A política filosófica do livro é generosa, mesmo se a sua análise sobre a classe de antagonismo seja talvez de que ela não é mais elaborada que o “Clube dos Pilantras”. E, como o romance fica mais obscuro, em direção a um tipo de final de Thomas Hardy, ele se precipita ao longo de forma impressionante. Mas enquanto o pastoreio de leitores de Rowling era, na série Harry Potter, um bem essencial, em “The Casual Vacancy” sua mão firme pode sentir constrangimento. Ela deixa pouco espaço para o periférico ou o ambíguo; segredos são rotulados como segredos escondidos, e os eventos são fáceis de prever. Parece que vemos as pessoas se deslocando em torno de Pagord como se eles estivessem no mapa do pergaminho mágico de Hogwarts.

E um poderoso e protegido escritor arrisca fazer as coisas erradas. Um adolescente pratica bullying em outro no Facebook, anonimamente e repetidamente, o que só poderia acontecer se a vítima se recusasse a fazer o uso das configurações de privacidade da rede. Algumas sentenças te fazem imaginar o editor da Little, Brown começando a discar o número de Rowling, então lentamente coloca o aparelho para baixo: “Há, em seu escritório pequeno, Simon Price olhava com cobiça em uma vaga entre as fileiras de dentro para um lugar onde o dinheiro estava agora escorrendo para uma cadeira vazia, sem colo esperando para pegá-lo.” E, em uma estranha volta reveladora, três personagens são lidos indesejavelmente, mas são essencialmente precisos, julgamentos sobre si mesmos em um pequeno site local, e todos os três se desintegram em medo e fúria. O romance parece tratar a suscetibilidade extrema como uma configuração padrão do psicológico.
Rowling recusou, mais de uma vez, um convite para aparecer na cerimônia de abertura das Olimpíadas. “Eu só pensei, eu não posso. Eu vou suar frio ou desmaiar ou outra coisa.” Ela aceitou depois de conhecer Danny Boyler, o diretor do espetáculo, ela foi convidada a ler uma passagem de “Peter e Wendy”, em que J. M. Barrie escreve que a Terra do Nunca “não é larga e expandida, você sabe, com distâncias tediosas entre uma aventura e outra, mas bem cheia”.

Rowling pensa em si mesma como uma “nervosa e autoconsciente” alto-falante. Segundos antes de ela ir ao palco, ela recebeu uma mensagem de texto de um amigo. Ela dizia, “Boa sorte, querida, tente não estragar tudo com o mundo todo assistindo”. Havia oitenta mil pessoas no estádio, e centenas de milhões de pessoas assistindo na televisão. “Isso foi o que eu estava pensando quando eu comecei a falar: Não estrague tudo com o mundo inteiro assistindo”. Em um blazer escuro, com seu cabelo soprado pelo vento, Rowling leu suas linhas, com uma voz um pouco triste. Quando ela terminou, um boneco de cem metros de altura de Voldemort levantou-se do chão do palco.


FONTE: Potterish, a melhor fonte sobre Harry Potter e J.K Howling, no Brasil.


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Kate Willians
KATE_WILLIANS Uma blogueira aquariana de 17 anos, que ama escrever e ler de tudo, adora The Vampire Diaries e é mais desastrada que um pato. Sonha em ser jornalista e acaba de publicar o seu primeiro livro; Debaixo das Minhas Asas.

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